sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A Vergonha - Crônica de Luis Fernando Veríssimo

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros… todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE. Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!). Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.. Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.

Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.

Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).

Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportamento humano”. Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?

(Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores )

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema…, estudar… , ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins… , telefonar para um amigo… , visitar os avós… , pescar…, brincar com as crianças… , namorar… ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

"A Vergonha" crônica de Luis Fernando Veríssimo, escritor, jornalista, humorista e cronista brasileiro, filho do também escritor Érico Veríssimo. É o escritor que mais vende livros no Brasil.


Veríssimo critica muito bem a falta de moral no programa de televisão Big Brother Brasil, mas isso inicialmente, porque a discussão se volta para todo um sistema individualista-hedonista onde o telespectador do BBB se integra. Há também um questionamento educacional e cultural a respeito do que a televisão pode nos acrescentar, onde se hipervaloriza pessoas que em determinado momento tomam um caráter intelectual e em outro se rebaixam para agradar as massas, que não percebem ou pouco se interessam a respeito da existência da hipocrisia na mídia. Todo esse discurso hedonista que se faz arrecada milhões e milhões do público, o povo brasileiro, e todo esse dinheiro é muito mal utilizado.

Mas todo esse discurso já foi muito bem feito pelo cronista. O que eu quero trazer é a explicação a respeito do homem individualista-hedonista atual. Primeiramente, esclarecendo o hedonismo, é a doutrina que trouxe o conceito de prazer como bem supremo para o homem renascentista. Sendo na idade média o corpo banalizado e tido como fonte de pecado, o renascimento trouxe uma nova visão de prazer como uma dádiva. A questão é que de fato, o prazer é um bem, logo o hedonismo é bom, mas a maneira como ele é aplicado é perigosa para o próprio indivíduo.

O hedonismo, capitalista, trabalha o conceito de prazer como a própria felicidade, e traz uma busca intensa pela mesma, mas os meios de atingi-la que a mídia impõe são falhos, porque o prazer é momentâneo, e o indivíduo busca a felicidade eterna, assim ele se torna temeroso em excesso e vulnerável a dor.

Quando o cronista fala a respeito da queda de Roma correlacionada ao sexo, o que ele quis dizer é como o sexo termina tornando irracional o homem. Existe todo um discurso sexocêntrico desde Freud que faz as pessoas pensarem que o equilíbrio emocional, intelectual e psíquico passa também pelo sexo. O que de fato acontece, porque quase todos os problemas psicológicos passam por um processo de não aceitação sexual. O ser humano procede racionalmente durante todo o dia, mas seus instintos não são inexistentes, como por exemplo a alimentação, as necessidades fisiológicas, o ato sexual. No entanto a socialização traz um estranhamento a respeito de certos instintos, não se discute digestão como se discute alimentação, e se as pessoas jantam em público, nos restaurantes, elas não fazem sexo em público. Assim, o controle que toda uma sociedade faz pelo seu instinto sexual de um só indivíduo torna esse vulnerável a problemas psíquicos.

Sendo assim, o BBB e outros programas contribui para a saúde mental dos telespectadores quando normaliza o sexo? Não. Sendo o sexo parte instintiva do homem, ele de maneira alguma pode ser prioridade para as pessoas, porque ele não ajuda no crescimento intelectual do indivíduo. O verdadeiro discurso psicanalista diz que o ser humano só pôde construir uma sociedade porque sabe controlar seus instintos sexuais. Uma pessoa que volta todo seu interesse ao sexo acaba perdendo seu engrandecimento cultural e rompe com uma obrigação humana que é a busca pelo conhecimento. Daí o sexo-centrismo caminha para uma irracionalidade do ser humano.

Um comentário:

  1. A midia ao mesmo tempo que faz piadas com gays e não da espaço para atores negros nas novelas e comerciais ( sim, pq colocar um ou três negros no meio de 10 atores loiros é inaceitavel já que não moramos na noruega) ela tenta se mostrar a favor da igualdade, da pluralidade sexual, racial, regional etc...só que colocar uma pessoa patetica pra representar o gay, tendo em vista que tem gays dignos de respeito, mas a midia sempre destaca aqueles espalhafatosos e baixo astrais, ou então um negro boçal que aspira ser um mauricinho branco, ou um nordestino que não sabe nda a respeito da cultura do nordeste é pedir pra aumentar o preconceito mais ainda. aumentar essa merda de sexismo que temos hoje, homens machistas,bombados, arrogantes....mulheres futeis e que acham que tem q aproveitar.todos morando numa casa luxuosa tendo tudo de bom,festas,putaria...a ganancia capitalista. esse programa não é um simples entretenimento de mal gosto, é uma bomba que semea o preconceito e a guerra.

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